terça-feira, 20 de outubro de 2009
domingo, 19 de outubro de 2008
Com a corda no pescoço

À primeira vista, o homem se confunde com a parafernália visual, como um quadro tornado incompreensível pelo excesso de informações. Veste uma bata marrom quase estilo franciscano, não fosse a corda grossa que pende do pescoço em vez da cintura. O comprimento da bainha é insuficiente e revela um par de sapatos sociais pretos e sem polimento. Na mão direita, uma bandeira de Minas Gerais e uma placa de isopor escrita: “Se todos quisessem, poderíamos fazer do Brasil uma grande nação”. Pendendo para o outro lado, quase esquecida, também há uma pochete estufada, sufocada pelo zíper.
O pano de fundo é a Feira do Livro em Brasília, e a caracterização de Amarílio funciona como uma espécie de ensaio para o seu evento favorito: o desfile de Sete de Setembro. Todo ano, motivado pelas comemorações da independência, o morador de Barra do Garças, no Mato Grosso, peregrina até a capital. Menos pelo patriotismo, e mais pela admiração a dois dos Silvas mais famosos da história nacional: Luiz Inácio, o presidente, e Joaquim José Xavier, o Tiradentes.
Esse entusiasmo foi o responsável por uma seqüência de atos públicos onde ele compareceu fantasiado. Em 2002, na posse do primeiro mandado de Lula, foi trajado de “bom velhinho”, com direito a guirlanda florida na cabeça, roupa vermelha e bandeira petista nas mãos. Carregava uma placa com a mensagem: “Viva Lula! O papai noel dos pobres!”. Sua atuação lhe rendeu espaço até na Veja. Desde então ele comparece anualmente à Esplanada dos Ministérios vestido de Tiradentes, parafraseando a quem se dispuser a ouvir os discursos de liberdade do mártir, no intuito de reafirmar sua importância.
Amarílio Carvalho virou fã de Tiradentes em 1982, enquanto participava de um Congresso de Esperanto em Ouro Preto (MG). Foi convidado a representá-lo numa peça teatral e a identificação foi imediata. O ímpeto em divulgá-lo Brasil afora, no entanto, só viria duas décadas mais tarde. “Estava sozinho em casa e senti um desejo forte, como uma ordem que dizia para vestir um roupão preto, colocar uma corda no pescoço e ir para as ruas divulgar o grande patrono.” Segundo ele, apesar da possibilidade de ser tachado de “louco, Matusalém e pé na cova”, resolveu apostar na idéia. “Sou um cidadão bem intencionado e como não peço divulgação em meu nome, sigo em frente”.
O ex-funcionário público federal aposentado nunca foi casado, nem tem filhos. Atualmente vende camisetas e trabalha como jardineiro voluntário no Parque das Águas Quentes, em Barra do Garças. Ganha cerca de quatro salários mínimos, paga R$ 150 de aluguel. Planta uma horta da qual retira sua alimentação e passa sua roupa. Quando não está envolvido em suas atividades “particulares”, veste jeans e camisas simples. Mas isso não o impede de ser reconhecido onde mora. “Mas aqui ele não é conhecido como Tiradentes não. Aqui ele é o papai noel das nossas crianças”, revela Roberto Carlos Alves, 39, que trabalha como vendedor na cidade Mato-Grossense.
Por causa da vida andarilha, Amarílio Carvalho está acostumado a se hospedar em lugares bem diferentes, geralmente acolhido por membros da comunidade esperantista. Livre pensador, mantém o costume de absorver a religião do anfitrião da vez. É comum vê-lo presente em um centro espírita, sentado num banco de igreja católica ou assistindo um culto evangélico na mesma semana. “As religiões são ótimas. O importante é ser bom e fazer o bem”.
Admirador da obra de Bach e Waldick Soriano, nunca leu os clássicos Anna Karenina nem Guerra e Paz, mas vive a falar bem de Tolstói. “Ele tinha um semblante de paz, e falou coisas lindas sobre o Esperanto”. Os grossos óculos para a miopia sempre foram seus grandes companheiros e até hoje, apesar de ter passado pela cirurgia corretora de visão há 5 anos, servem como justificativa pela falta do hábito de leitura. “Gosto de romances suaves e do drama real, como jornal, por exemplo”.
Por causa do seu estilo de vida, já foi confrontado por reações extremas. Certa vez caminhava por Niterói, quando foi abordado por um rapaz, que soltou um grito de “Jesus ressuscitou!”, seguido por um palavrão. Em outro momento, ao ser entrevistado para um jornal de Brasília, ouviu do repórter: “Eu acho que o Senhor é a reencarnação de Tiradentes!”. Amarílio reagiu negativamente. “Isso é uma ofensa à imagem dele. Além do mais, a tetraneta do Tiradentes, minha amiga, acha que a reencarnação dele é o Lula”. Falando nela, chama-se Lúcia de Oliveira, tem 63 anos, e aprova a representação. “É claro que ele quer chamar a atenção, mas é um recurso que está sendo utilizado de forma positiva, para a manutenção da história”.
Na cidade onde mora é conhecido por se envolver nas campanhas municipais e depois brigar com seus apoiados. Em 2004, panfletou para o candidato a prefeito do PCdoB, Zózimo Chaparral. Atualmente dá suporte a Maria do Mercado, do PMDB. “Amarílio é uma pessoa honesta. Agora ele está me ajudando nessas eleições e sempre faz um discurso bonito e acalorado para a população”, declara a candidata sobre seu cabo eleitoral. O vendedor de instrumentos musicais Jonatan de Souza, de 21 anos, também vê a excentricidade com bons olhos. “Ele corre atrás do que acredita. Tem uma bela história de vida”.
Lenir Araújo, 32 anos, auxiliar legislativa da região, faz parte da corrente que o considera um lunático. “Ele foi jardineiro do nosso parque e era pago para isso, mas o atual prefeito o despediu. Mesmo assim, ele continua lá, cuidando da natureza”. Segundo ela, Amarílio é um incompreendido adorado pelas crianças. “Meu filho disse que quer ser igual a ele quando crescer”.
O Tiradentes de Barra do Garças não possui família próxima. Cresceu afastado da única irmã, Zeni, 81 anos e ainda hoje eles mantêm pouco contato, restrito aos dias comemorativos quando ela o hospeda em sua casa em Brasília. O marido dela considera o cunhado um “completo maluco, um débil mental”. Zeni se mostra um pouco mais compreensiva com a distância existente entre os dois. “Não conheço muito bem o Amarílio. A gente não reclama porque cada um com suas loucuras. Mas ele parece ser bem feliz com isso… Eu, hein?”.
Tanto empenho em relação a causas inusitadas sinaliza uma alternativa ao que poderia ter sido uma história de solidão. Aos 18 anos, viveu um romance com uma moça chamada Rosa. Traído, nunca se recuperou do trauma. Mesmo embalado num namoro de mais de dez anos com uma senhora de Barra dos Garças, ainda reserva as conversas mais sentimentais ao passado. “Essa história que o amor não acaba é balela, mas por 53 anos a Rosa foi o meu”.
Amarílio viaja sempre e de ônibus, porque nunca se interessou em aprender a dirigir. Seu destino mais longínquo foi a Rússia, lugar de onde fala com carinho. Tem como sonho não-realizado o projeto de ir à Santa Catarina fazer um curso de palhaço. É uma pessoa que acredita piamente na beleza do que faz. À semelhança de um personagem de desenho animado anunciando o fim do mundo, encontrou vida na história alheia. E se a arte se beneficia do contraste entre luz e sombra, Amarílio se tornou uma espécie de eclipse.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Atualizar para construir.
As pré-concepções envolvendo o processo de comunicação mediada e seus personagens como um todo, muitas vezes escondem preconceitos forjados em axiomas. O jornalista não precisa ser o cara boêmio com opiniões frias sobre todos os assuntos globais, assim como o espectador não está disposto a acreditar em tudo que a mídia transmite. Até mesmo a concepção mais branda, que considera ambos os lados como produtores de um processo multilateral de informação, pode ajudar a criar um abismo entre o profissional e o humano, ao apresentar-se sobre o escudo inquebrantável da objetividade.
As várias definições de jornalismo existem para suprir o vazio conceitual umas das outras. Mas sendo ele janela, ou sendo lupa, pouco importa, já que no mundo do conhecimento qualquer entrelinha reina ditatorialmente com uma constituição na mão. Enquanto os grandes manuais de redação fazem escola, a política do furo é sedimentada sobre os escombros da veracidade. No meio disso tudo, qualquer conclusão sobre o venha a ser a ética perde fôlego, pois é muito mais fácil apontar o que não é.
É válido pensar, portanto, que a ciência responsável por contar a realidade para as outras pessoas cumpre melhor o seu papel quando discute a si mesmo sob o ponto de vista do cidadão. Porém, o que se percebe é que o noticiário nunca alcança a raiz dos problemas expostos e a superficialidade vê uma brecha para arrastar o mundo. A sensação de confusão aumenta com o número de dados, números, fatos disponíveis, ironizando qualquer possibilidade plena de democratização da informação.
Há muito escândalo e todos se espetam, pois é melhor ser agredido em rede nacional que ser esquecido. Ao esgotar-se um assunto, uma fonte seca continua a suprir uma manada voraz com a única coisa que tem a oferecer: vento. Todo mundo respira de graça, mas paga para consumir a bizarrice que é a fusão entre marketing, jornalismo e entretenimento, roteiro dos programas de maior audiência nacional.
Assim como água parada transmite doenças, o jornalismo que não ajude as pessoas na adaptação e compreensão do mundo, não convence. De todas as epidemias, porém, a pior é a disseminação do saber sem sentimento, pois leva ao niilismo e à descrença geral na sociedade. Afinal de contas, como pode uma pessoa ser tocada sem que haja uma sensação reconhecimento, de sentimento comum?
A mobilização, enquanto reação, precisa ser despertada. E quem tem ego sabe que o mundo é nada menos que a filtragem daquilo que se é, com a conjugação de elementos que se sabe, por meio de experiências que se teve. A humanidade vive à procura de uma forma de deixar sua marca no mundo. O jornalismo que compreender isso será mais espelho, mais céu aberto. E mudará o mundo a notícia que despertar no leitor a vontade de procurar um foco próprio, de atualizar para construir.
Faircity Banks Transit System
O ônibus que cerca o descobrimento
De índias totalmente América:
Escambo de corpos sob lençol de vapor,
Tantas rodas paradas, e por tanto tempo
Escondia o ouro, a prata
E os tesouros ainda enterrados
Sobres fios e fiapos sobre a boca...
E se a vaga hoje faz jus ao nome que tem
Houve um tempo em que o veículo
Ouvia a pressa em forma de prece, e vice-versa
De riscos horizontalmente fumê
Em noites que não se vê nem faz
Mas nem por isso se desfaz
A ânsia do velho querer
Que sempre terá seu lugar
Onde a hora é finita e o coração treme;
Assim como a dúvida,
De rumos e rotas dos velhos pneus
Das ruais e becos aos quais
Ainda é cedo para seguir,
Em bicicletas de rodinha e pouca experiência no trânsito.
Dis-seminando
Eu não quero ir para a Sibéria, eu não quero ser mãe. Detesto copo meio cheio, lama no sapato, abacaxi no prato. Nunca quis dirigir, tenho medo do trânsito mas gosto de volta de ônibus porque a música rende mais. Fujo da multidão como dinheiro foge da mão e o sol poente acalma. Eu não gosto de hospitais, pessoas com gostos iguais, inércia de meio dia. Para mim, soneca é pouco, meu cheio é sempre oco, meus sonhos são um bando de loucos que moram dentro de mim. Eu nem sempre fui assim, tão mal-passada, tão amassada. Já fui esguia, quando infantil, tão pueril quanto uma chuva de verão. Eu que já tive horror, provei sabor e deleite, hoje tô banguela, tô quebrando dente. Eu não quero que seja, não quero cerveja para beber com esses lábios que anunciam a sentença. O inseguro é tão mais forte e eu prefiro o revés à minha sorte-semente. Hoje eu estou demente, quase indigente, eu não quero ser gente nem cabe a mim permitir quem seja. Eu quero a calma benfazeja da velhice à dois num canto, escuro, à velas. Dois não são três e é você que me apavora. Repudio a imparidade, orfanato da fertilidade, caridade que não é natural. Desfaço as devoluções de planos, renovo os contratos, resoluções. Se tú é blasé, se tu é fumê, bom para você. Eu só quero ser o que tenho sido. Não há nada de errado comigo e eu vejo isso nos seus olhos. Eles me sorriem pedindo calma. Eu me debulho n'alma, tapo o nariz que me falta em ar. Penso nos outros e não me vejo em erros mesmos. Tão sem defesa, janto o garfo sem ter mesa e imploro ao pão que não esfrie. "Então a vida não salva o mundo?" pergunto em vão ao relógio. Ele parece rir de mim. Me perco em começos, em rios que pararam de correr. Morrer na doçura? Nascer na amargura? Viver parece irônico com tantos extremos e eu me arrependo... mas não entendo, e nem tento, buscar certeza que me tire daqui. Eu não quero trair matéria, nem discuto religião. O que eu espero tá a um metro, mas o que eu temo tá bem mais perto e eu não quero me mover. Se chega o vento que balança o berço, se chora a mão que segura o terço, é porque o dia chamou alguém. Eu grito calada, com a boca fechada, eu tapo o ouvido e dói o peito. Se você me perguntar eu nego, e por isso eu não dou papo a ninguém. Quem se engana cai na lama, mas você tá sempre certo. O meu olho tá aberto, procurando uma resposta, mas minha porta tá fechada para você. E é com todo pesar eu digo, eu não sou e nem dou abrigo, meu sossego não é seu amigo e é assim que eu quero viver.Quem sou? Eu.
Como verde na floresta
Chega o tempo onde não se deve falar de si mesmo. Qualquer novo saber muda a forma de ver o mundo e os momentos que se passam diante das pessoas adquirem outras amplitudes de significação. Uma palavra dita, uma frase cantada numa melodia perdidas entre ondas, ou mesmo o silêncio que alguém não fez, tudo isso nos causa sensações estranhas, pois cada uma é diferente das anteriores.Se nada é o mesmo por dois segundos consecutivos, se uma impressão jamais poderá ser descrita em toda sua profundidade, o que deve ser ponderado em tudo isso? Aonde chegará quem procura uma encruzilhada qualquer que determine o fim de seus dilemas e perturbações? O que ouvirá aquele que buscar o consolo nos amigos senão os conselhos que o falante deveria tomar para si próprio?
As palavras sem registro se perdem como paisagem sem tinta. A folha que voou nunca mais cairá, tão graciosa, movendo lentamente o ar que aguardava ser inspirado. A vassoura que une os pedaços do outono faz brinde à importância de se valorizar a estação corrente. Às vezes é fácil se perder por uma folha seca guardada num livro, como um buquê que um caso qualquer recusou devolução.
Se aos humanos, diante de um tempo livre, a natureza soberanamente vista causa nostalgia, se qualquer manifestação do que não pode senão “ser” fura o coração das pessoas com rajadas de ar frio, é mister ponderar o que cada um leva em conta tratando de si mesmo. Cada ponte erguida é um abismo que vive ao lado. Cada sorriso ao sucesso é um fio de cabelo arrancado no desespero de colchão virado.
Ser o que se é, como entulhos caídos da lata de lixo, passadas de pé descalço no pedregulho, consiste num jogo de hipnotizar para maiores e avisados. O nó frouxo da corda pendurada é mais tenso que o sorriso de quem finge não se preocupar com os verdugos da própria sorte, porém, mais firme que a convicção da maioria naquilo que lhes é essencial.
Entre o amor e o desgosto, nas lamas de céu azul e escorregões de pátio de mármore esfregados, você e eu temos que escolher aquilo que nos erguerá. Da forca à força, para quem está no chão, tudo parece lucro. Desde o sepulcro ao crepúsculo, chega o momento onde o medo de simplesmente não vingar arrebata a visão de quem procura um tom certo no toque dos sinos. Os ouvidos se programam para a reprogramação: “agora não, agora não”.
Chega um momento onde não cabe pensar em si mesmo, pois a alma é um beco e o corpo é um rio da Rússia esperando o degelo. Há quem patine, há quem fique sem saída: é de ritmo ou de paredes o que todo dia se ergue à nossa frente? É de mente ou é de fuga que as gentes se alimentam quando a multa é alta e o paraíso está sem conta? Quem percebe que a grade é só uma barra que corre perto do peito? Como evidência há um vocabulário falho diante do gosto de ferro tão perto da garganta.
Querer ser imortal com ferrugem nas veias é como roubar um pão com a boca cheia. Quem muda de foco é para fugir da loucura de descobrir-se verde na floresta; quem a si mesmo ama, se engana, vai trocando de nome na intenção de ser feliz. E quando mim vira outrém, nos olhos de ninguém é que se trava a possibilidade de crescimento.
Se eu me renovo todo dia, fugindo do calor e caindo na hipotermia, é porque para viver, falta um jeito de espremer zero e jorrar suco de cem. E eu quero o lucro que dobra por dentro, que floresça no talento e que me leve, um dia quem sabe, a ser Alguém.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Economia Solidária apresenta alternativa concreta à política capitalista
A capital federal, porém, não enxerga a economia solidária apenas através da burocracia. Cooperativas com sede em Brasília têm desenvolvido um importante trabalho, com criatividade e cidadania. Exemplo disso é a 100 dimensão, que além de conscientizar as pessoas sobre a importância de preservar o meio ambiente, gera renda através da coleta seletiva e reciclagem de resíduos sólidos, que são vendidos para Anápolis e Goiânia. A cooperativa, localizada no Riacho Fundo II, possui cerca de 200 associados, e através da reutilização de material como lacres, papel e estruturas de ferro, eles conseguem tirar uma renda mensal em torno de R$ 450. “As pessoas vêem na cooperativa uma forma diferenciada de trabalho e a procuram por não possuírem outra fonte de renda”, diz Francisco Mendes, 40, administrador e consultor da 100 dimensão.
Também seguindo a linha ambientalista, a cooperativa brasiliense Trilha Mundo, fundada em 2005, conta com um grupo de 24 pessoas que desenvolvem projetos sócio-culturais de urbanismo, bioconstrução, turismo sustentável, créditos de carbono, serviços ambientais, educação ambiental e comunidades. A iniciativa surgiu da necessidade de uma turma recém-formada em Ecoturismo colocar em prática o que viu na sala de aula. Clodoaldo Souza, 28, um dos cooperados-fundadores, afirma que a missão de uma cooperativa é fornecer benefícios aos cooperados. “A Trilha Mundo busca o benefício do cooperado não só na parte financeira, mas também na pessoal”, conclui.
Num contexto onde o ganho individual figura como o protagonista do cenário mundial moderno, idéias que busquem o bem estar geral e a igualdade de renda podem parecer obsoletas e utópicas para quem está de fora. Porém, aqueles que encontraram na economia solidária uma porta aberta para uma vida digna, defendem essa união que dá certo.
Nas palavras de Alceu Brito, 62, cooperado da Coolabora, “a cooperativa é como uma escola de samba, com suas alas e diferentes setores unidos por um desfile comum”. Pensando assim, é uma pena que o Brasil das alegorias teime em entrar no ritmo de seu povo e que a coreografia sem serpentina das cooperativas continue passando despercebida, desprovida de carnaval. E diante de um sistema econômico que até tenta, mas ainda não aprendeu a lidar com o cooperativismo, resta o conforto de que, pelo menos, a energia dos passistas vai conduzir até o fim da avenida.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Fatores de confiabilidade jornalística no escândalo “Watergate”
A primeira grande reportagem ligando os arrombadores ao Comitê de Reeleição do Presidente (CRP) foi publicada em agosto do mesmo ano, assinada por Carl Bernstein e Bob Woodward, redatores do Washington Post. Woodward era um funcionário motivado, enquanto Bernstein escrevia sem muito sucesso de finalização. Nenhum deles se sobressaía no jornal até Watergate, quando toda a atmosfera interna – e até mesmo o futuro do Post – parecia depender do sucesso e veracidade das informações apuradas pelos dois.
Seguiu-se paralelamente às publicações seguintes do Post sobre Watergate uma campanha massiva do governo americano para desacreditar o Jornal. Ron Ziegler, secretário de imprensa da Casa Branca, atacava constantemente sua linha editorial, segundo ele, baseada em boatos, suposições, manchetes sensacionalistas e fontes anônimas. Ben Bradlee e Katharine Graham, Diretor de Redação e Publisher do Washington Post respectivamente, foram abertamente acusados de serem Anti-Nixon.
Ben com sua autoridade de editor, teve um papel muito importante nas investigações do esquema sigiloso envolvendo o CRP. Estabeleceu regras fundamentais para o processo e determinou o andamento das reportagens, apesar de toda a pressão do governo, sempre acompanhando de perto cada passo dado por Woodward e Bernstein. Na releitura da cobertura do caso feita por Hollywood no Filme “Todos os homens do presidente”, seu personagem correspondente declarou em uma das falas que “não podia escrever para os seus repórteres, precisava confiar neles.” E essa relação de confiança parece ter de fato existido, baseado no fato de que os empregos dos dois jovens jornalistas foram, por parte, salvos pelo compromisso demonstrado em Watergate.
Tratava-se de um caso delicado e o Washington Post sabia disso. Qualquer erro poderia arruinar permanentemente a credibilidade do jornal, e por isso os editores adotaram algumas medidas de segurança em relação ao que publicariam. A mais importante delas foi a política de duas fontes: informações fornecidas por anônimos precisariam ser confirmadas por outra independente. Declarações Off the record foram fundamentais para o andamento das investigações, mas só eram usadas depois de checadas, fator que seria impossível se não possuíssem reportagem exclusiva, o que concedeu-lhes mais tempo de apuração e confirmação.
Todos os artigos passavam por aprovação dos editores antes de serem impressos, medida de extrema importância para determinar a qualidade de material disponível para o leitor. Woodward possuía uma fonte secreta, apelidada de “Garganta profunda” em alusão a um filme pornográfico, que foi considerada como a principal do caso.
Não é a toa que um dos maiores “efeitos” do caso Watergate tenha sido o uso de declarações em off, que tendem a causar uma sensação de desconfiança no público se utilizadas em excesso. Porém, a introdução de fontes anônimas não deve ser menosprezada, já que é uma ferramenta muito importante para o jornalismo e deve ser vista como tal.
Watergate foi um verdadeiro escândalo político e trouxe grandes contribuições para visar o jornalismo e todas suas possibilidades investigativas ao envolver um governo obcecado pelo sigilo. Vários fios soltos das ações governistas serviram como trilha para o desfecho final, inclusive a decisão excêntrica tomada por Nixon de gravar as conversas realizadas na casa Branca; a divulgação das fitas oficiais foi de grande peso para sua renúncia, assim como sua crescente desmoralização pela mídia. Foi também uma verdadeira prova à liberdade de imprensa, com a justiça envolvida na tentativa de calar as denúncias.
Acima de tudo, porém, revelou a força de uma equipe editorial bem estruturada. Tanto o empenho dos repórteres quanto o ceticismo e exigência dos editores do Post foram imprescindíveis para elevar a noticiabilidade do caso Watergate a níveis mundiais, pauta que logo foi incorporada por outros jornais e pela televisão. Serviu para provar que a imprensa tem uma responsabilidade imensa sobre tudo que publica, podendo até mesmo fazer parte do processo de mudança da história.
"Catavento" busca a erradicação do trabalho infantil
Em Brasília, o projeto Catavento desenvolve uma ação conjunta com o Instituto Marista de Solidariedade firmada em julho de 2006, e atende crianças a partir dos sete anos de idade, beneficiando 50 famílias. Lá são ministradas aulas de: informática, rádio web, hip-hop, cursos de cabeleireiro e manicure, além de oficinas esportivas. Dentre as ações sociais, vale ressaltar o projeto de liberdade assistida, onde os professores ajudam na reabilitação de menores infratores com aulas de grafite. Aline Dos Santos, assistente social disse que "as crianças participam das oficinas no horário contrário das aulas regulares na fundação educacional, e assim demonstram um compromisso maior com o intuito proposto pelo Catavento, que é a prevenção do trabalho infantil na região administrativa da Ceilândia. Não há casos de menores que retornam ao trabalho".
G.A, 12 anos, vindo de uma família de três irmãos, onde só o pai e a mãe trabalham, afirma que já ajudou no orçamento do lar vendendo "din-din" e que dividia as atividades entre o trabalho e o estudo. Entrou no Catavento em Janeiro e concluiu que o projeto fez diferença em sua vida pois já não passa mais tempo nas ruas, e sim praticando música. Já Marília Silva, 29, mãe de duas beneficiadas, ressaltou que suas filhas tiveram um avanço no desempenho psicológico e escolar desde que se inscreveram nas oficinas de dança. "Quando não vão às aulas do projeto, elas sentem falta", afirma. Marília nunca permitiu que as meninas trabalhassem apesar das dificuldades financeiras e lamenta não ter participado de projetos de inclusão social quando jovem.
Em ambos os casos, a realização dessas atividades desenvolvidas por projetos tais como o do Catavento possibilitam sonhos e dão uma esperança para tantas outras famílias que passam por situações semelhantes. Vale ressaltar que dentre todas as atividades desenvolvidas, afastou-se o retorno das atividades trabalhistas dos assistidos dando-lhes uma nova perspectiva sobre suas ambições vindouras e como colocá–las em prática.
Festança no milharal: mas até quando?
Parece incoerência que um país com o potencial agrário do Brasil ainda abrigue pessoas que não comem. O problema de extensão dos direitos básicos é um velho conhecido nosso, mas vem apresentando melhoras. Os pobres brasileiros estão comendo mais! Lula afirmou, o mundo internacional chiou, mas a questão é que se aumentam os convidados da festa e o número de salgadinhos permanece o mesmo, a probabilidade de alguém se estapear pela coxinha é grande. Muito grande. E no cenário internacional, não há dúvidas de que o potencial de barraco do Brasil é limitado.O problema do abastecimento abrange um grau de complexidade relativo. Muito pode se discutir sobre a questão do aumento dos preços, culpar os pobres e sua audácia em querer se alimentar, ou desacreditar o combustível do Brasil. De um lado, a cana-de-açúcar brasileira, combustível com potencial duas vezes maior que o etanol de milho subsidiado pelos Estados Unidos, do outro, a tranqüilidade dos grandes em saber que a próxima refeição do dia está garantida. Mas até quando?
Ora, até a Nestlé, maior empresa de alimentos do mundo, já declarou que se os Estados Unidos insistirem com a idéia do etanol de milho, vai faltar alimento. O mundo corporativo, em diversos momentos, provou que na luta entre a ganância e o bem estar social, não se pensa meia vez em escolher a primeira opção. A partir daí, é fácil notar que, cada vez mais, terras serão destinadas ao milho para produzir combustível, porque é rentável. Pensando assim, não é leviano culpar os Estados Unidos pela tendência inflacionária, chega a ser um pensamento coerente. Coerente como ver, em festa de bacana, a melhor bolsa esconder os quitutes que faltam aos demais.
Não leva mais que alguns segundos para perceber que o milho está presente nas mais diversas culinárias, nos mais diversos hábitos gastronômicos. Desde os cereais matinais à polenta italiana, trata-se de um grande responsável pelo abastecimento mundial. É verdade que, sozinho, ele seria empada sem recheio, mas sem ele, os cardápios e os estômagos vão reclamar. E a calamidade resultante da irresponsabilidade volta como bumerangue. E não importa a cor do sangue, a verdade é que sem comida ninguém vive. Aqueles que cresceram sob a incerteza da refeição seguinte, porém, desenvolveram formas alternativas de tapear os dentes, ajudando-se mutuamente sempre que possível. A fome de berço esplêndido dói mais, porque é novidade. Fica a dica.
Quanto vale ou é por quilo: Catarse que esperneia
Os filmes de Sérgio Bianchi são conhecidos por adotar uma grande dose de ceticismo e um tom sarcasticamente questionador. Em Quanto vale ou é por quilo?, de 2005, o diretor não deixa por menos e dá continuação a um trabalho que sabe fazer bem: o lançamento de uma obra que esperneia.Utilizando-se de recursos documentais e estrutura visual fragmentada para corroborar o seu discurso, Sérgio Bianchi abre mão do estilo cinematográfico para imprimir a sua crítica social. Ilustrando a hipocrisia em relação à pobreza e os limites da liberdade e cidadania, o filme evoca, muitas vezes, o cinema novo, beirando o apelativo ao mostrar demais, explicitando sem cerimônia, a realidade.
Baseado no conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis, o filme traça paralelos de épocas que aparentemente não apresentam nenhuma correlação: os conflitos escravistas do período colonial e o assistencialismo lucrativo das organizações não-governamentais. A conclusão mais óbvia que apresenta é a de que a estrutura social do Brasil continua perversa. Mudou-se a pele da escravidão, agora vestida por grifes caras e assegurada por um discurso corporativo, mas ela ainda existe e encontra-se visível para quem estiver disposto a encarar um semelhante menos favorecido. A "burguesia" filantrópica do filme não estava, e isso fica claro na cena onde o personagem de Herson Capri limpa o paletó ao ser tocado pela recém contratada senhora da limpeza.
O filme revela como muitas pessoas fazem do assistencialismo uma forma de liquidar culpas e promover uma "dieta na consciência", através de um mercado de 20 mil entidades que movimentam mais de R$ 100 Milhões por ano. Tais números grandiosos deixam claro que o Estado é ineficiente na área social, abrindo espaço para projetos como o "Informática na periferia" e o "Sorriso de criança", que escondem um setor sustentado pela miséria alheia.
Como o filme não se ateve prolongadamente em nenhum personagem, há espaço para vários enredos e catarses, como a mãe que se torna financeiramente dependente de outra mulher para bancar a festa de casamento da filha; o marido que, diante da falta de dinheiro para sustentar o filho e manter o padrão de luxo da esposa, vira matador de aluguel. Falando assim, não parece surpreendente que o mesmo rapaz "finalize" a única manifestação de resistência e luta, representada por uma personagem negra e pobre como ele, mas acaba sendo. Muito menos pela previsibilidade, e sim pela dura verdade de gente matando gente por tão pouco, por tantos zeros num cheque que não lhes pertence.
Bianchi compara tais mortes de conveniência ao feitor de escravos, que capturava a "presa" para um patrão, sem ao menos enxergar uma resposta financeiramente satisfatória; as prisões abarrotadas aos navios negreiros; carroças puxadas por crianças à troncos e máscaras de folha de flandres. A liberdade, que outrora a poetisa cantou, apresenta-se não mais numa esfera inexplicável, e sim, definitivamente deturpada em valor e sentido. O articulado presidiário, representado por Lázaro Ramos, chega a declarar que "a liberdade de consumir é a única verdadeira funcionalidade da democracia". Logo depois de despejá-lo assim, de forma tão desprovidade de perspectiva, o discurso leva a um seqüestro análogo aos métodos de captação de recursos, utilizados pelas ONGS.
Se a existência humana no sistema capitalista parece apenas existir com um prefixo "sub" em letras garrafais, o filme transmite uma sensação azeda ao telespectador mais atento, e mais ainda àquele que, desistiu de "encarar" a trama ao sentir o embrulho no estômago diante do vômito explícito dos "pobres". A verdade que não dói na própria carne é ultrajante e absurda, poderia ser a mensagem de abertura. Até mesmo a solidariedade foi afetada pela diminuição da ética e integridade nas instituições da sociedade.
E Quanto vale ou é por quilo? esperneia quando deixa bem claro que não tenciona encontrar admiradores e sim, cuspir uma mensagem e transmiti-la à mil decibéis: a moral do país faliu. Bianchi diz, em cada cena e com cada personagem, que o Brasil se perdeu num caminho de falsos valores, e mantém suas setas invertidas para confundir quem vem andando. E o diretor o faz sem dissociar a culpa da própria cultura do país, já que a corrupção faz parte da nossa história desde escambo, à modernidade de escravos sem engenho.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Olhe a burocracia:
O mundo veloz ouve de todos os lados, megafones gritam seus códigos aos mais variados ventos, que, num movimento retroativo, traduzem línguas e dão significado a estações no tempo. A burocracia existe no sistema, na biologia, no amor. A cadeia alimentar não poderia ser linear assim como o apaixonado nasceu para ser reticente; existem coisas que são como são, persistentes.
É uma surpresa, portanto, pensar que, em contraste com toda a lentidão do judiciário e todas as mazelas na saúde, algo tão instantâneo como o cérebro humano, tão "velocidade da luz", comporte-se como membro das cavernas quando o assunto é a burocracia. Não que ela envolva sinais emitidos entre conexões e caminhos entre neurônios, e sim as correlações entre tudo que se sabe sobre o presente, os grandes sonhos futuros e os pontos de recuperação do passado.
O mais difícil para alguém em posição de incerteza quanto ao desembocar do próprio rio é desligar-se da imagem de seus afluentes. Quem não sabe para onde vai só possui como referência os passos marcados no cimento outrora molhado, e tal referência causa a sensação de informação perdida entre os departamentos do tempo "viver". O momento presente há de ser o estado burocrático mais puro de um mundo esquematizado, pois tem como referência desejos de segurança e estabilidade de dia seguinte, sempre temendo que o requerimento da felicidade não chegue até o seu destino final. Quando a transição impera - quando o trem está em movimento, o vivente se sente mais parado que nunca - e a sensação de inércia parece irremediável, a mente acha mais fácil apoiar-se em barras do que já foi.
É por isso que a que burocracia pessoal é de longe a mais perigosa: não há homem que esteja livre da complexidade de ser o que é. Uns caminham, outros sonham, há também os que tentam construir com as próprias mãos mesmo quando a matéria prima é escassa. O labirinto dos dias é um jogo sem regras, cujo objetivo é evitar o outro lado pelo máximo de tempo possível. A única vitória é poder participar. Há quem se sente ainda na largada e assista o ato concreto da parede; os desesperados que, cientes da finitude, antecipam a viagem à luz. No meio disso tudo, mensagens transitam entre escalas-muitas, fazendo-se ouvir por inúmeros e compreendidas por quase ninguém. Uma delas anuncia um desvio na rota, uma oásis na estrada, e passa despercebida; a burocracia da procura ofusca a simplicidade de encontrar: os que gritam e correm tombam para ver o que precisam já pisoteado por seus sapatos.
Muitas vezes basta olhar por onde andamos, mas a preferência geral é por tatear no escuro, procurar por faces - inclusive aquelas que lhes pertencem - no contorno das nuvens. Sempre aspiram demais, ou de menos, alheios ao fato de que é atentando às pegadas mais discretas que se torna possível diferenciar os assoalhos ocos dos maciços sem cair no buraco... e a verdade é que muitos caminham sobre galpões de tesouros, tomados por almorixado de escuridão e baratas.
O que se ignora quase sempre tem respostas que as pessoas procuram com a insistência de uma vida, mas a encruzilhada humana raramente torna visível a possibilidade de soluções fáceis para sonhos difíceis. Infelizmente.
domingo, 30 de dezembro de 2007
Mundo de ciclos
O bruxismo de dez graus Celsius – que pareciam negativos – atingiu-a em cheio quando ela abre a porta do guarda roupa. Pensava em uniformes, amores e ônibus. No primeiro porque estava indo trabalhar, no segundo, pois sempre se sentia solitária ao toque do despertador e a terceira pelo simples fato de que precisava tomar um ônibus para chegar ao seu destino. As suas idéias eram tão imediatas que a vida era os vinte minutos que ela teria se quisesse chegar a tempo.
Mas o que era o tempo naquele silêncio de ronco alheio num domingo de madrugada? Há diferença entre tempos que são bons, tempos merecidos e o tempo de quem acorda cedo? A parada de ônibus tornou-se palco de um despertar gradual de consciência que abrigava questionamentos de um domingo que justificava o porquê de ser o primeiro dia da semana e não uma quarta. Assim como todo fluxo que se preza, deixava a fluência para a metade do caminho e se abstinha do trabalho de hora zero. Enquanto ela encarava as árvores esguias e inertes da cidade, refletiu sobre o novo ano, imaginou-o como um sistema de transporte. As pessoas vão para lugares diferentes de formas diferentes, mas a espera sempre existe, seja em um posto de gasolina ou numa faixa de pedestre.
O silêncio matinal tornava-a cuidadosamente intensa, o frio cortante abrigava-a como uma luva feita sob medida. Apenas uma coisa ela achava desagradável em estar acordada quando dormiam era o desejo do corpo de se estirar e nada mais... Mas o vazio e o canto semi-doído da manha desperta, satisfaziam-na com uma leveza de quem exerce uma tarefa importante. O que era levemente irônico tratando-se de quem vivia o passo ávido das noites de papel e pálpebra arregalada sobre a cama.
E era aquela insônia que sempre a levou a ver um ano como um dia, e freava os anseios de planos e mil resoluções. Um chegava, outro saía, e assim o mundo se sustentava diante das mais que infinitas medidas de tempo que cravavam seu espaço no universo; no caso dela vinte vezes doze vezes trinta vezes vinte e quatro. E não seria o quarto de volta de relógio em seu pulso a favorecer balanços e retrospectivas; pois ciclo não existe sem se fechar e a vida há de se renovar para quem vive.
Para ela o sonho projeta a mente para além, para um fim de um começo que não se concretizou, e a expectativa impede-o de construir bases fortes; a pressa nunca faz o transporte chegar mais cedo e por isso ela se distraia com música, com fones de ouvidos, pois não podia se dar ao luxo de sonhar ao compasso da manhã recém nascida. Não era hora. Pensar no travesseiro nunca deu força a ninguém que precisava se manter de pé. E mesmos os pés sem meias num frio sem inverno sabem que só se sustenta quem sabe que vai se sentar. Pois ficar deitado é o fim do ciclo. O último tic do relógio, que leva aos fogos, à terra.
O sol nascia e ela pensa que esperar vida nova é como água limpa. E a vida toda ela quis ser cachoeira, mar, correnteza: regozijar-se no estado líquido e em tudo que exibisse o quão cheia em si ela poderia ser. Um fluxo sem fim que desembocava num copo que vivia a aumentar o próprio raio, sem fundo nem borda. Quem quer mais do que precisa nunca transborda; pois no final das contas a diferença não é a água que cai, mas o tamanho do recipiente que se utiliza para viver.
E ao brilho do farol tímido fazendo a curva para alcançá-la no ponto de ônibus ela sente-se cheia, suficiente por entender que não é a mudança de calendário que muda a vida. Tanto fazia o trinta e um e o primeiro se os outros trezentos correm desenfreadamente, atropelando tudo ao seu redor. Vale mais o pouco dinheiro da passagem em direção ao movimento produtivo de um dia que fortunas sem destino de um ano. E ao passar pelo cobrador ela quis ser vela de filtro. Não aquelas escandalosas de corredores de colégio, mas uma unitária de filtro de barro. Queria se bastar, queria a capacidade de limpeza discreta mas eficiente para satisfazer a sede com o essencial. Pois resoluções de ano novo dificilmente funcionam, mas aquelas coisinhas de vida velha que sobrevivem às folhinhas, impulsionam.
Ao tomar assento e ver as paisagens em movimento, ela percebe que o tempo é centímetro e não estrada, e é por isso que o velho filtro de barro faz seu trabalho sem alarde e sem pressa, pois sabe que a pureza logo vem. O grande segredo do trajeto é não achar que a chegada do veículo muda tudo. É preciso saber para onde ele vai. Olhar os sinais, saber deixar um passar na intenção de pegar outro que satisfaça melhor as próprias necessidades... pois num mundo de ciclos, de fins e começos, quem saber usar um meio é rei.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Contos de fada na janela
O carneiro e o lobo
Contos de fada na janela
Acorde!
Se o que vês é o norte,
Note!
Onde estará nossa sorte?
Lágrimas e vinho, criança
Favor não seguir essa estrada.
Sozinho? Vá pela sombra!
Arreia esse silêncio e monta
Esses passos arrastados
Que ao surdo presta conta
Que ao cego acena.
Pede ao mudo um conselho!
O único que vale a pena...
Suor e lama, andarilho
Pois o seu sol está de luto
Seca essa fonte gotejante
Todos querem ver um rosto enxuto
Não sabia?
Essa estrada é traiçoeira
Que agonia!
Devagar!
Você pode tropeçar...
Fé e dor, companheiro
Que passeiam de mãos dadas
Se choras?
Turva é a visão
Se pedes?
És deixado na mão!
Mas que importa?
Fim da reta!
Cumpriste tua meta.
Mas tu ainda sentes algo...
Porque tem que ser assim?
O horizonte se extende.
Avante.
Os olhos se supreendem
A diante!
Os pés não se arrependem
Mas tu ainda sentes algo,
Não digas que não.
Revela que ai dentro
Afogado em solidão,
Ainda bate um coração.
Sapatos antiderrapantes.
Fujo do fatalismo e hoje teimo em ser feliz. Acredito que a vida pode virar a esquina e encontrar bons sentimentos sempre que ela se dispuser a convidá-los para um passeio. Afinal de contas, ao contrário do que se pensa, eles não são perfeitos e carregam sua parcela de orgulho. Nunca correm ao telefone, esperam ligar. E mesmo quando convocados, enfezam fácil e não admitem cobranças de nenhuma forma. Saem de casa apenas se o interesse de seu contato não se sobrepor à necessidade de criação de um ambiente receptivo e amistoso. E, nas raras oportunidades que são bem tratados sem a necessidade de troca, se dispõe a derramar o mundo de bem aventuranças aos pés de quem se encontra do outro lado da linha.Demorei anos para descobrir que meus pedidos, o meu sarcasmo e o meu desespero afastavam os tais moços do meu bairro. Foi somente quando a solidão tomou conta de mim e os dedos discaram um número qualquer e o "tu-tu" do telefone ouviu o meu desabafo, que entendi. Entendi que os bons sentimentos nunca estiveram do outro lado da linha, mas nas coisas que o meu bocal transmitia.
E eu tentei cantar, não para me alegrar, porque isso me parecia impossível, mas para espairecer o pensamento; fugir dos meus problemas ao galope da primeira melodia que eu lembrasse. Dos primeiros tons veio um súbito alívio, e posteriormente, uma vontade de dançar. Dai para sair de casa e comprar sapatos antiderrapantes, foi um pulo. Ou melhor, uma pirueta em pleno asfalto.
Mal sai da minha rua e avistei um palco armado, repleto de milhares de apetrechos decorativos à espera de um artista. Bastou que eu percebesse que a platéia não se constituía de cadeiras, mas de um grande espelho, para me sentir convidada a fazer parte do cenário. E eu, que me esperei por tanto tempo, cai, rodopiei, cantei em falsete. Ninguém viu, mas foi suficiente para me fazer esquecer a tensão, o fardo de ser feliz. E foi ao desistir da benfeitoria caridosa da vida, que vinha em migalhas perdidas em saco de pão, que eu atraí todos os bons sentimentos do mundo.
Linhas não-traçadas.
Eu sinto o cheiro de cada linha que eu não escrevi e é por isso que me assombro diante dos prazeres nasais e me contento com o odor do shampoo que o vento traz dos meus cabelos. Pois nem todos os perfumes franceses do mundo ofuscariam esse cheiro, o cheiro de flores de cemitério após o enterro, lembrando aos que velam o corpo que a vida é finita. E o cheiro nas linhas não traçadas me é indizível como tudo que vale a pena, sem ser bom nem ruim... mas sempre acaba por me lembrar que ao pó voltarei. E já que é assim, que Deus não permita que seja ao flamejar de folhas em branco. Credito da foto: http://www.flickr.com/photos/jamelah/37474390/
Amor fluente.
Dos recipientes disformes
O plástico que estipula forma
Mas derrete diante do calor
Que é intrínseco ao conteúdo
Não me extermine, não me examine
Nem pense em retirar dos gestos
O amor que só em ti padece
Na luz que pelo olhar se esquece
Do crepitar da chama a fluir;
Do pulso em dor a subsistir
Quando você se cansa e manso
Oferece-me os teus consolos:
Eu que sou ponta de faca
Apontada contra o estômago
Se não posso vê-lo sorrir...
E só me assolo aos carinhos seus
Que são rosas do belo à colorir
Diante dos carinhos meus.
Rito Contrito
Do olhar cansado à espera do apito
O resignar que as pálpebras têm
De evitar o sono como quem cala grito.
Cento e oitenta minutos de teto
Verdades tão tolas forjadas em mito
Confundo-me ao breu e seu toque irriquieto
Me remete ao vão cuja sombra eu reflito
Sinapses de travesseiro quente
Latejam vertentes com ar de conflito
Se tento pensar, ou se fujo à minha mente
Me perco sem volta onde o ato é contrito
O sol logo vem à galope de nuvem
E o raio convém que o julgue bonito
Permitindo às retinas que logo se turvem
E às horas perdõem adiando o não dito
Rendendo o inquieto ao seu fim ignoto
Sonho que é verso a perder-se no atrito
E o caminho que é reto escorre tão torto
Que insônia se perde com ar de delito.
E o trem das seis logo passa
Eu me atento à janela e reflito
Se o paralelo que ao trilho transpassa
Não vai se encontrar no infinito.
Áureas Da Vinci
E se caçar tesouros sem o maquinário certo não parece uma boa estratégia de ação, partir de pressupostos sobre as qualidades alheias também não é. E se as pessoas mais virtuosas e reluzentes do mundo têm a habilidade de transformar qualquer pedregulho em ouro, é errado pensar que tal descaracterização é intencional, aliás, raríssimas vezes é o caso. É que no caso da cereja do bolo, para ela ocupar lugar central no quitute mais esperado da festa, é pré-requisito fundamental de seleção que a redonda da vez não saiba de sua importância. Melhor ainda se ela vir nas velinhas, guardanapos e copos descartáveis as verdadeiras protagonistas do parabéns. Falsa realidade que culmina na disputa, à tapas, do pequeno fruto, sem ele saber.
Pessoas estruturalmente excepcionais sempre foram desestimuladas pela sociedade por serem, sozinhas, superiores à massa semi-podre e de valores deturpados que se fermenta pelo mundo. Quanto mais espetacular é alguém, maior é a probabilidade de que, todos os dias, pessoas à sua volta façam com que este se sinta um marciano, o esquisito da história toda. E é natural que seja assim, pois ninguém gosta de admitir que conheceu alguém infinitamente melhor que si mesmo. Num local onde a desordem da rua justifica a falta de asseio da casa, torna-se dificil conviver com a idéia de que ainda há terrenos onde as flores nascem sorrindo.
As melhores pessoas desse mundo são coadjuvantes de uma programação que só entretêm por causa delas. Não há uma dessas por ai que chegue perto de saber o próprio valor, ou mesmo que entenda como contabilizar as finanças do próprio cofre. E por possuírem tanto, e tão bem guardado, chegam a acreditar que não têm nada, ou mesmo a pensar que a fortuna que possuem é ordinária. Diante disso passam a tatear no escuro, confundidos pelos próprios sentidos, à procura de um sentido, da hora certa, de uma pessoa que já são há muito tempo e que foi deixada de lado pelo medo de não dar conta... sem saber que a melhor piscadela desta deixaria máscaras e escudos no chinelo.
Há estrelas por ai querendo aprender a brilhar com lampião, outras que temem faíscar para não se queimarem e aquelas que se acham opacas, invejando reflexos de espelho. Quanta bobagem. Assim como a água não se envergonha de fluir pelo rio, quem é mar deveria entender que é natural ser profundo além da própria capacidade de compreensão. É tão óbvio quanto a bailarina que desliza na sapatilha, e assim deveria dançar quem nasceu para ser música: não como intruso na passarela, mas como coreógrafo de um ritmo sublime, mesmo sabendo que a beleza leva tempo para ser talhada.
Há em certas pessoas talento e brilho de sobra, porém, alguma delas tendem a se sentirem inferiores, ou mesmo a se enconder por trás de uma preparação que só virá se encarada de frente. O mundo gira ao contrário e paradoxalmente as maiores pessoas se sentem pequenas ou mesmo dentro de padrões medianos. E vivem sem saber porque é assim, incertos diante de que postura adotar. É uma pena que não se perceba que a falta de ajuste é culpa de um desafio pequeno demais, e não o contrário; que áureas de Da Vinci insistam em quebrar cabeças com guache quando a Monalisa os espera com moldura nas mãos.
Certas pessoas são obras de arte num mundo de quinquilharias, mas por serem diferentes, insistem em achar que é o contrário. E nesse desengano quem mais perde é o próprio mundo, que continua a viver no branco e preto até que o artista perceba que ele dita as cores, e não as cores o artista.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
O lápis
E no meio desse vai e vem ritmado, do entra-e-sai de gritos e risos e reclamações de um docente já cansado, horas mais tarde, canetas e laptops põem-se a redigir conteúdos essenciais – sem os quais nenhuma vida vai para frente. E nas juntas das teclas e nas gotas de tinta que adormecem e mancham o calinho dos dedos, o lápis permanece em seu breu de escanteio. Poucos o notam ou mesmo se recordam que escola é mais que um papo-furado sem fim de conversas paralelas e lições de beco que muitas vezes se perdem entre os pés e os tijolos finais.
Outros, mais ousados, ignoram a pobre estaca por puro desdém: fazem questão de fazer com que ela se sinta ultrapassada e sem valor, um meio de comunicação já retrógrado com o qual não desejam o menor dos contatos. Afinal de contas, o que é a tal caligrafia, de qualquer modo? Retroceder ao grafite é como cogitar que fabricantes de televisão suspendam a venda de controles-remotos, um absurdo! E com esse pensamento acusador, o dito instrumento reacionário é deixado para trás com uma cuspidela. E poderia ter sido um chute, não fosse a intenção de abafar aquela presença.
Uns evitam a mesa do cilindro com espanto digno de homem de capa vermelha sobrevoando a cidade. Não, não é o super-homem, mas é tão mutante quanto: caixinha que ao ser girada no interior de uma lâmina desperta as entidades sonolentas da expressão. E como não há nada mais assustador para o ser humano – principalmente os que estão aprendendo, que se acham os mais sabidos – que o suspense de uma boca a abrir-se em frases para o domínio da mente. E o lápis afugenta os passageiros do caminho-fundão como erva daninha diante do jardineiro, porém sem o machado, o alicate e as luvas cruéis... sem qualquer outro instrumento, da forma mais sutil possível.
O lápis jogado no canto é ignorado por todos, temido por poucos e amado por nenhum. Abandonado numa fogueira de desprezo, é lenha de seu próprio fim e do silencia que não gosta de fazer, mas enxerga como única forma de protesto. E choraminga farpas de verbos sem complemento, socorros sem exclamação e lágrimas sem “agá-nem-ó”. É a vida do canto dominando as extremidades e a zombaria da modernidade o hino de vitória das lapiseiras. Um detalhe sobre a mesa, ignorado. Antiga arma de escritores e amantes, atualmente um surdo sem direito à palavra.
E ao ignorar-se o traço forte e manual, esqueceu-se na indiferença as milhares de possibilidades a seu respeito. O que estaria fazendo ali? A quem teria pertencido? Teria sido a pressa o motivo do abandono? Que mistérios engendra a sua proveniência? Teria sido um presente, ou compra de troco de padaria? Seria uma manifestação anti-progressista? Ou mesmo o dejeto de uma ex-ditadura de estojo?
Um lápis só é um lápis para quem não tem visão. Assim como a família que ganha dez centavos por quilo de madeira e teve papel fundamental no fornecimento da matéria prima não deve ser esquecida à partir do momento que o caçula é totalmente desassociado de seu produto final. Ele que jamais terá um lápis em sua mão. Não o da madeira que fornece, mas das idéias que poderia ter com um pouco de incentivo e um desenvolvimento pessoal propício.
Portanto, você que insiste em ignorá-lo, o lápis, ou deixa-lo pára trás, evitando a responsabilidade que surge com o processo de comunicação, seja consciente. Não seja leviano com o uso de seu instrumento e nem o troque pelas facilidades de um mundo mecani(globali)zado. Escreva e volte a escrever, mas lembre-se que um bom ser humano só deve abrir a boca se puder superar a serenidade do silêncio. Infelizmente, poucos pensam nisso, mas todos deveriam. A comunicação é um dom democrático, de púlpito e não de “achados e perdidos” e pertence ao mesmo “todos” que não a percebe detalhadamente - como poeira na brisa -, mas deveria ser daqueles que encontram detalhes escondidos em objetos que nem se sabia perdido.
Crédito Da Foto:
http://www.flickr.com/photos/santhosh0123/789355673/
sábado, 27 de outubro de 2007
(;)
"Em meio a uma crônica o Ponto Final e a Vírgula se conheceram. E em uma voz passiva e analítica dialogaram. Perceberam que um era o complemento do outro. Em letra maiúsculas fizeram do verbo "amar" um verbo de ligação entre eles. E no presente, traçaram planos para o futuro. Concordaram em tudo — gênero e número — e se fizeram "o Ponto e Vírgula". Assim viveram... Se completaram por composição e derivação. Fizeram a vida tão sábia quanto a poesia de Cora Coralina e tão doce quanto os romances de José de Alencar. Promoveram diversos encontros consonantais, muitos dos quais não sofreram a divisão silábica." (M.V.L.)Cinco dias haviam se passado e ela não agüentava mais aquela imersão em lenços e chás milagrosos contra gripe. A única parte de seu corpo presente à superfície, boiava numa prancha de lixa para parede que tratava de arranhar todos os sons que se atreviam a passar pela garganta. Foi nesse contexto que veio a noticia do showzinho gratuito, e a possibilidade de sair da cama para rever seus amigos foi suficiente para que ela juntasse forças e fingisse melhoras diante da mãe. Deve ter sido convincente, pois saiu de casa e conseguiu chegar ao local do evento.
Deu de cara com uma área vip maio que o espaço total da platéia e uma pequena possibilidade de subversão foi suficiente para que ela esquecesse completamente da doença. Incitou à grito que a platéia pulasse a grade, e quando ninguém o fez, foi reclamar do absurdo com o organizador do evento. Chegando lá, notou que um dos membros mais distante do seu grupo de amigos a seguia. Expuseram seus argumentos, e diante da indiferença do ouvinte, iniciaram eles mesmo uma conversa.
Ele, jornalista formado, ela recém matriculada na faculdade de comunicação, assunto não faltaria, e assim foi. Ele, por educação, disse que ela poderia contar com ele na sua empreitada profissional. Ela, por atrevimento, respondeu que não era necessário fazê-lo, oferecer a ajuda com a aquela ela já contava tão solidamente. E assim, chamaram a atenção um do outro; não se desgrudaram em fotos, brincadeiras, em nada, mas tudo aconteceu tão discretamente, que nem eles perceberam a aproximação.
A noite terminou com piadas sobre a condição de solteira dela, e comentários sobre um livro de autoria dele. E ela, que passou a vida toda planejando - e sempre apenas planejando - escrever, tomou o fato como pessoal. Sua curiosidade não descansou até que tivesse acesso a algum tipo de informação sobre a obra.
E a verdade é que, sempre que interrogado sobre a escrita, ele, sempre o piadista da galera, se tornava efusivo, como se não gostasse de comentar o assunto, e fez muito bem. A obra de um escritor é a extensão de seu corpo, o braço que ergue a xícara de café nas manhãs, e ela bem sabia, pois sua carreira literária era um projeto de arranha-céu que nunca se concretizou.
Mas... mal saberiam eles que das perguntas insistentes surgiram as besteiras, e delas uma afinidade instantânea. Eram horas e horas de palavras escritas que iam e vinham, e pessoas que iam percebendo que as risadas em frente ao computador haviam se tornado comum. Quando ele viajou para fazer a cobertura de um importante evento esportivo, ela o acompanhou intensamente e a cumplicidade que nascia em cada vírgula surtia como abraços em forma de palavras.
E esse misto de saudade e ansiedade em relação à próxima forma/momento de contato foi a realidade deles por quatorze dias, até o momento que ela o viu em frente ao seu prédio com uma agenda na mão. Ela não sabia muito bem o que esperar, mas ao folhear aquelas páginas, encontrou os assuntos mais diversos e pensamentos que ele nunca compartilhava com ninguém.
À partir daquele momento, ela que teria se contentado com uma pequena informação sobre o enredo, foi envolvida por aqueles registros e se viu ali dentro. E em cada ponto ela percebeu que as linhas eram preparação para uma composição maior, um enredo mútuo onde um era protagonista do outro. E o amor nasceu da necessidade inexorável de confronto ao silêncio, da respiração forçada não pela contração do diafragma, mas do balançar do lápis.
E ela entendeu que só podia escrever sobre o crivo apaziguador da inspiração que era ele, e nunca mais houve páginas em branco. Pois finalmente enxergava um enredo verdadeiramente digno de ser narrado.
(Parênteses: Essa é uma história real que poderia ser fictícia. Ao mesmo tempo, é pura ficção misturada com desvaneios de gente acordada. Tudo bem, tudo bem, isso pouco importa. A idéia aqui é falar que às vezes é um detalhe, sim, algo que você deixou de dizer, a preguiça que te fez ficar em casa aquele dia, que faz toda a diferença. A inspiração pessoal é um assunto complicado, porque muitas vezes as pessoas acham que é preciso estar apaixonado, ou mesmo, ter uma vida super agitada - quase de super herói, mesmo - para arranjar "danados" de assuntos. Ah, que engano tão lamentável é esse. Se as pessoas soubessem que é na simplicidade que a profundidade do artista vem à tona, e que assim ele se torna mais sincero... o mesmo acontece com aqueles que esperam um giro astronômico para mudar de vida. Muitas vezes não é preciso nem mesmo percorrer uma estrada, mas dar um passo, só. É algo que você diz, é um olhar que foi lançado, um sorrido que poderia ter quebrado o gelo. As pessoas esperam do amor algo mirabolante, quando muitos negam em admitir que o único caminho que existe até ele é o percorrido na busca de si próprio. Quem procura outra pessoa sem se conhecer, de fato, dificilmente encontrará ago que valha a pena. Não que seja fácil, muito pelo contrário, é o caminho mais dificil. Mas o amor é tema para algum próximo post. Por enquanto basta que se diga que os temas simples e histórias aparentemente "batidas", ou mesmo sem importância, são as melhores, porque a diferença proverá do modo que você lidará com elas, da sua forma única de vê-la, e isso é riquíssimo. O ser humano é por natureza subjetivo. Que tal traduzir um pouco de si mesmo nas coisas que cria? Afinal de contas, qual seria a graça da arte, da escrita, se não fossem bocados de "eus" unidos numa grande interpretação conjunta?)
Pluralidade do desconcerto
... Não foi por acaso que surgiu a denominação de “arte suja” depois de espetáculos como Terra em Transe, O Rei da Vela e Roda Viva. Os artistas brasileiros divorciaram-se do esteticismo e da arte como fonte de entretenimento e passaram a usá-la para uma missão mais urgente que pode requerer até violência, mau gosto, agressão e choque: a missão de revelar concretamente a complexidade da realidade brasileira... (A Arte numa Roda Viva: as marcas da Inocência Perdida, Revista Visão, 01/03/1968.)Política mesquinha explorando um povo burro. Arte caótica que não apresenta um caminho determinado para a compreensão, mas obriga os espectadores a refletirem sobre o que viram. Chocante e radical, quase ilógica e tão miserável como quem sofre ou faz sofrer: assim é a obra de Glauber Rocha.
A trama acontece na cidade de Eldorado, metáfora competente para a situação dos países da América Latina no âmbito da política da época, o ano de 1967. Parece querer atentar a alguns fatos principais, como: o descaso da política em relação à população, aos ideais que se tornam quase sempre frustrados com a tomada de certo grupo/individuo ao poder, à impossibilidade de expressão do povo (seja por ignorância, por repressão e etc.) e ao caráter ambíguo compartilhado tanto pela direita, como pela esquerda.
Muitas vezes envolvido por uma sensação carnavalesca, outras vezes por um tom obscuro que beira o desespero, vai até o fim para realizar o que propõe: causar desconforto. A primeira cena já se mostra desconcertante, envolvida em discussões a respeito da confusão política, e como se não bastasse, termina no ponto zero, com o poeta fugindo dos militares. Nesse ponto podemos perceber a tonicidade barroca de “Terras em transe”, não só na idéia cíclica e que faz alusão à sensação de estranhamento causada à primeira vista, como na evocação ao maldito e ao sublime, algumas vezes como forma de justificação de uma força no poder. Os minutos seguintes se apresentam como seqüências intermináveis de vômito em forma de palavras, versos, “significantes - mil” que são disparados sem direção, sem mira determinada, mas que sempre acabam derrubando alguém. E o maior exemplo dessa influência verbal, era o poeta.
Paulo Martins é um personagem marcado pela dualidade e contradição. Escrevia e glorificava o povo, mas tinha verdadeiro pavor da simples idéia de contato com eles. Sentia-se livre, enquanto dotado de sentimentos, na poesia - como se ela o colocasse em um lugar confortável, onde a ação direta não era necessária - mas com o passar do tempo, passou a pensar que a atividade poética lhe proporcionava pouco poder. E diante dessa situação, abdicou do desenvolvimento prolixo e vê na política um caminho para encontrar as soluções dos problemas de Eldorado. Apóia um candidato de esquerda, o governador Filipe Vieira, e trai um senador recém-eleito de quem havia sido protegido: Porfírio Diaz. Isso torna bem clara a necessidade de Paulo, de seguir um líder sempre, movido pela idéia de que mais que observando os acontecimentos, estaria participando ativamente deles. Como se não fosse bastante, a trama nos mostra ainda Julio Fuentes, dono de “quase tudo” na cidade, que, mesmo, declarando-se de esquerda, alia-se às forças imperialistas com medo do próprio declínio.
A crítica é geral, e nem mesmo o sistema socialista escapa. A sua pretensão humanista pouco eficaz diante das questões políticas e administrativas, compõe uma das inúmeras metáforas que se espalham na trama. Tudo isso tendo como pano de fundo um triângulo amoroso, ou algumas vezes, até mais que isso.
“Não é possível essa festa de bandeiras com guerras e Cristo na mesma posição”, é uma das afirmações do filme. “Fome e o analfabetismo são propagandas extremistas”, citando algo extremamente combatido pelos personagens. “Se você quer poder, tem que experimentar a luta, dentro da massa existe o homem, mas ele é mais difícil de controlar.” Paulo mergulhou na desordem e dizia-se incapaz de anunciar ventos de paz, e é essa a impressão que Glauber Rocha quer se engula à todo custo. Mas a frase mais marcante talvez seja creditada à Sarah, amada de Paulo, quando diz que a poesia e a política são demais para um só homem. O que não deixa de ser verdade, e afundar-se nas duas é perder-se na loucura, mesmo que no ideário de “Terras em transe”, ela seja sinônimo de consciência. Mas para quem assiste o momento final e vê o personagem principal morrer mais por causa de sua derrota pessoal que pelas balas em seu peito, não há como não ser tomado por uma náusea de surrealismo e exasperação psicológica. E a sensação que fica pelo menos no primeiro instante é que poesia e política foram demais sim, mas para a obra. Que se perde onde deveria oferecer sentido, e se acha justamente na pluralidade do desconcerto.
Crédito da foto:
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Favor, não escrever.
Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos, mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria o poder de encantá-las. (Carlos Drummond de Andrade, O Lutador.)Crédito da foto:
domingo, 14 de outubro de 2007
Tratados sobre a preguiça.
Eu tenho preguiça de acordar, preguiça de me levantar. Eu tenho preguiça de me esforçar, preguiça de ir trabalhar. Preguiça, moleza. Eu tenho preguiça de pensar, preguiça de raciocinar, e eu tenho preguiça de estudar e me formar. Eu tenho uma preguiça gigantesca, gigante pela própria natureza. Mas se for pra jogar bola, me chama que eu vou. Me chama que eu vou. (Ultraje a Rigor - Preguiça)quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Tupi or not tupi?
O modernismo foi um movimento cultural que se desenvolveu na década de 20, com destaque de “abertura” para a semana de arte moderna de 1922. Essa fase inicial ocorreu paralelamente a vários acontecimentos importantes, como: eleições presidenciais, fundação do partido comunista no Brasil e todas as conseqüências diretas ou indiretas da primeira guerra mundial. O mundo moderno era o palco de apresentação das máquinas, da informação como mercadoria e desenvolvimento dos meios de comunicação, como o telefone e o telégrafo. Os autores do movimento buscavam abolir o passado e recomeçar sobre bases de originalidade. Tentariam todo e qualquer caminho artístico se vissem uma possibilidade de quebrar moldes e causar choque de opiniões.
Enquanto movimento, contou com três fases. A primeira delas, foi a mais insurgente e radical. Diante da necessidade de quebra com o passado, tratou-se de uma fase marcada pelos vários experimentos com a visível intenção de destruir preceitos. Absorveu elementos das vanguardas européias, como o futurismo e o cubismo, e era terminantemente contra os padrões artísticos vigentes. Seus artistas transmitiam suas opiniões através de revistas culturais, e foi em uma delas que o manifesto antropofágico, escrito por Oswald de Andrade, foi publicado.
Tratava-se de mastigação de idéias e de aproveitamento de nutrientes intelectuais, independente de sua procedência; da retomada às origens indígenas e à valorização dos vários lados do nacionalismo. Pregava a paródia do arcaísmo cultural e histórico do Brasil de forma original e polêmica, com base no devoramento de valores europeus como meio de superação das normas do imperalismo. O intuito era a adoção da língua falada em detrimento do português erudito dos intelectuais; aproveitar-se do que era bom e apropriado para a realidade brasileira, e da “contribuição milionária de todos os erros”.
A renovação da arte viria a partir da libertação dos instintos artísticos, da digestão das idéias externas mescladas com elementos de identidade nacional. A verdadeira cultura brasileira surgiria “da não identidade”, da riqueza de ângulos em vez da unilateralidade ufanista, porém, sem imitações estrangeiras. O movimento antropofágico colocou em questão a dependência dos países de terceiro mundo sem excluir a importância das influências externas na formação de uma característica própria tupiniquim.
Uma de suas obras principais é a pintura “O Abaporu” (aba: homem; poru: que come carne humana, em tupi-guarani), de Tarsila de Amaral, gravura feita a óleo, concebida originalmente como presente ao mesmo Oswald do manifesto, até então, marido da pintora.
(Parênteses: O movimento antropofágico não perdeu sua atualidade, principalmente no que diz respeito à crítica da dependência e à reformulação de uma gama de idéias com a intenção que elas se adaptem mais à nossa realidade. É um manifesto duradouro se pensarmos que o capitalismo tornou cada vez mais discrepante as realidades entre quem explora e a base da pirâmide social; e que o Brasil, mesmo tão mudado, permanece com os mesmos problemas da década de vinte. O desafio diante de tudo isso é saber como impor a brasilidade diante do imediatismo trazido pela internet e da massificação mundial causada pela globalização. Saber usar elementos externos sem perder a própria essência, e acrescentar individualidade àquilo que o mundo apresenta como recurso para quem estiver disposto a usar. Problema que se assemelha bastante ao nosso: como utilizar o que já está pronto à favor da própria inspiração, sabendo que não há nada que nós façamos que não possa ser feito por outras pessoas (como diria Sir McCartney), e tendo o plágio se tornado algo tão cômodo com o advento do “côntrolcê-côntrolvê”. O próprio uso da inspiração já requer uma estratégia, portanto, criativo é aquele que sabe acrescentar um toque de personalidade à assuntos, muitas vezes, já ruminados por outros. É tornar novo, o que é visto como velho e dizer o que todo mundo sabe, mas nunca explorou, por achar que era óbvio demais.)
Crédito da foto:
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Momento poético.
Thaís Figueiredo Chaves.
Meu tempo é uno: existe apenas na inspiração
Que desconhece o sono como relevante
Faz de carnaval a noite do pensante
E não respeita meus horários noturnos.
Oh, inspiração!
Me abstenha dos lampejos soturnos,
Permita-me a criação de chá das cinco
Aberta ao leitor solar
E não ao travesseiro radioativo faminto
Por atenção do descanso a bailar
No ritmo mais desconexo
De traços mais que complexos
Cujo preço é o dia a raiar.
(Parênteses: uma noite de insônia pode ser um ótimo momento de criação. Em vez de rolar na cama a noite toda, que tal pegar um bloquinho de anotações e escrever? Ler algo totalmente distoante do seu tipo de literatura ou realizar pequenos trabalhos manuais? A sensação da pequena produção inesperada além de gratificante, aumenta a auto-estima e faz com que a mente considere o descanso posterior mais que merecido. Aliás, o poema acima é um dos primeiros resultados que responde ao propósito desse blog: a busca da inspiração pessoal. Espera-se que não seja o único.)
Incubação de idéias
Incubação é o período que um ovo leva para se desenvolver e o pintinho vir à tona, e assim como um agente qualquer dificilmente aparece causando a doença, em ambos os casos, há uma fase de preparação pré-eclosão. O mesmo acontece com as idéias. Quem nunca esteve sentado à mesa, pronto para abocanhar um pedaço de comida, para ser tomado mentalmente por uma imagem? Ou foi assombrado por uma frase solta e aparentemente sem significado por oras a fio? Nesses situações, a obstinação da idéia em grudar nas grades do pensamento se torna irritante, mas não há nada de extraordinário nisso. quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Cem anos de... inspiração.
Gabriel García Márquez, que tinha onze irmãos e era neto de um veterano da guerra dos mil dias, era conhecido por Gabito nos tempos da juventude. Sua avó, que por muito tempo o ouviu contas histórias mirabolantes ainda quando era bem pequeno, e que o julgava vidente pela clarividência das idéias e semelhanças com a realidade, talvez não se assustaria se ficasse sabendo do grande futuro do neto como romancista. Não que ele tenha se contido ao escrito literário, atuando como jornalista e ativista político, mas foi com sua obra mais conhecida que alcançou o grande reconhecimento: o prêmio nobel de literatura em 1982. Cem anos de solidão, publicado em 1967, é um marco na literatura escrita em espanhol, e apresenta em sua constituição uma forma tão rica, que por si só, já é conteúdo, mesclando o fantástico com metáforas de acontecimentos importantes da América Latina. http://images.amplitudenet.pt/leitura/products/972-20-0031-4.JPG
sábado, 15 de setembro de 2007
Profissão: Fotógrafo

Rafael Zart tem 19 anos e faz o quarto semestre de publicidade. É quase um recém-chegado no mundo da fotografia. Trabalha como profissional de eventos sociais há cerca de um ano e nunca fez cursos especializados. Acredita que fotografar é mais intuição que qualquer outra coisa, e vê na realização da atividade uma necessidade pessoal. Foi depois de uma festa de família, ao perceber que nos registros visuais do evento "sobravam dez dedos para lá e dez dedos para cá", que ele começou a pegar máquinas analógicas e fazer suas primeiras experiências. Se deu tão bem, que não se vê sem tirar fotos, e afirma que há certas coisas que não se pode colocar em palavras. E nisso consiste a grande razão da fotografia. Ah, outro grande detalhe! Rafael não sai em fotos. Tira-as e se contenta com os bastidores: é tímido.
Porque a fotografia?
Foi natural, fui me envolvendo e gostei. Comecei a tirar foto na máquina do meu irmão e achei que precisava comprar uma própria. Comprei e percebi que eu gostava muito de fazer isso.
O que significa a fotografia para você?
Fotografia para mim é um passatempo, é uma esperança de trabalho, muitas vezes é necessidades, há dias que eu preciso tirar foto, independente do que seja, por necessidade psicológica. Por exemplo, um dia desses eu estava assistindo um curso de fotografia publicitária, e ao sair da aula, a vontade de bater uma foto era tão grande que eu cheguei em casa e fotografei o carro na garagem. Eu precisava tirar aquela foto. E ficou bonita.
Qual a sua inspiração na hora de bater uma foto? O que torna uma cena digna de ser fotografada?
Eu olho e simplesmente sei o que é digno de sair numa foto. Eu estou numa comunidade no orkut que diz "Ah, se meus olhos tirassem foto", porque eu olho e sei de antemão como a foto vai ficar. Geralmente, a minha inspiração é a luz. Sempre que eu vejo uma iluminação diferente, eu bato fotos. Eu estou sempre à procura da luz perfeita, tiro fotos sem flash para não distorcer a iluminação original. Se eu estou dirigindo, por exemplo, eu ando enquadrando o que eu estou vendo. Estou sempre enquadrando alguma foto mentalmente.
O que você sente quando está fotografando?
Eu fico feliz, principalmente porque eu gosto das fotos que eu tiro. Antes de bater a foto, eu já visualizo como ela vai ficar, na minha cabeça. Quando eu acho algo que vale a pena, eu fotografo até conseguir exatamente aquela imagem. Se eu não consigo, fico um pouco angustiado.
Você tem algum fotógrafo predileto?
Vários. Michael Wesely, na fotografia de longa exposição; Sebastião Salgado, "monstro" da fotografia em preto e Branco; Kasuo Okubo, na fotografia de pessoas; Alexandre Magno na fotografia publicitária. Cada um segue uma vertente da fotografia e todos sãoe excepcionais.
Até onde você espera que a fotografia o leve?
Eu vivo um dilema no momento, eu não sei se a fotografia vai ser um sustento financeiro, eu espero que seja, nada melhor que ganhar a vida com algo que você gosta de fazer. Mas eu acho que eu não vou usar a fotografia para ganhar dinheiro, se eu não puder fazer isso do jeito que eu quero. Por exemplo, nenhuma foto minha passa pelo photoshop. Se eu tiver que fazer isso por um motivo que eu discordo, eu não vou fazer. Eu não trairia meus principios fotográficos.
- (Parênteses: Muitas pessoas passam a vida procurando por um dom. Uma atividade na qual possam executar com prazer e com competência, e consequentemente, encontrarem reconhecimento. Ao contrário do que se pensa, não há nada de utópico nisso. Algo tão simples como um album de fotografias familiar, nesse caso, mostrou a uma pessoa, não só um caminho, como uma profissão e um hobby. A inspiração, bem como o meio onde utilizá-la, não está nos confins infinitos do universo, muito pelo contrário. É na ação banal e corriqueira, que poderia ser executada por qualquer pessoa por ai, que se encontra "o interessante". Utilize-o sempre ao seu favor. Situações comuns e conhecidas não só humanizam a produção, como facilitam que um maior número de pessoas possa se identificar com a mensagem que você quer passar. O mundo é feito de "Rafaeis", talentos que se descobriram "do nada", e através da intuição se fizeram. Confie no que você vê e nas imagens que sua mente cria. Esteja disposto a "clicar" até chegar à imagem ideal. Confie nas técnicas e utilize-as ao seu favor, mas não seja escravo delas. O espírtito criativo deve ser livre e permitir-se, sempre, ir além. Principalmente no que diz na questão do olhar. Esteja atento aos pormenores que acontecem ao seu redor, eles são fontes recompensadoras.)


Veja outras fotos de Rafael: http://www.flickr.com/photos/rafazart/
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Desregramento dos sentidos
“Digo que é preciso ser vidente, se fazer vidente. O poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências.” (RIMBAUD, Arthur. “ Carta dita do vidente”.)Jean Nicolas Arthur Rimbaud nasceu em 20 de outubro de 1854 e morreu 37 anos mais tarde, no mesmo dia em que um editor parisiense publicava a primeira coletânea de sua obra. É o poeta francês mais lido em todo mundo, considerado por muitos como maldito e rebelde, também é reconhecido como precursor do simbolismo. Escreveu poemas revolucionários entre os 15 e 19 anos, abandonando a atividade para mais tarde perambular pela Europa e trabalhar como traficante de armas na África.
Os seus escritos serviram como argumento para a teoria que diz ser impossível haver dissociação entre a vida do poeta e a sua produção. Para entender Rimbaud poeta, é necessária uma compreensão da pessoa precoce, solitária, profunda conhecedora de línguas estrangeiras e amante de outro poeta, Paul Verlaine. Sua existência foi bastante conturbada e inclui uma visão de Febo (Apolo), onde recebe vários poemas e a revelação: “Tu vate eris” (Serás poeta).
No que dizia respeito à literatura, ele dizia que esta deveria ser mais um meio de transformação, que um fim propriamente dito, experimentando-se através dela a totalidade do ser: escrever era um projeto existencial. Para Rimbaud, era preciso “ter nascido poeta” e ele se reconheceu como tal, e só era possível “colocar-se” em prática, através da desordem e do desequilíbrio. Seu pensamento seguia na direção de algo que lembrava um estado doentio, o qual ele chamava de “desregramento dos sentidos”. Dessa forma, excedia a visão, transgredia laços entre o ser e o seu meio, libertava-se de imagens formais sobre os assuntos. Para ele, era primordial, a consideração do desconhecido, principalmente aquele onde não havia perspectivas de desbravamento.
Rimbaud transitava entre a fronteira entre interior/exterior e tornou clara a distinção entre as criatividades formal e poética, uma que copia a partir de concepções pré-moldadas, outra que encara o ignoto de frente. A imaginação formava imagens, e a poesia deveria muito mais deformar que formar. Seu grande projeto de vida era ser vidente, e isso não diz respeito à previsão de acontecimentos futuros, mas de perceber o presente sobre diferentes prismas. Não é à toa que 116 anos após a sua morte, ele e a teoria do “desregramento dos sentidos” sejam tão estudados e tenham influenciado tanto a arte dos séculos XIX e XX, podendo citar a obra “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector. O poeta também era grande referência para Jim Morrison, vocalista do The Doors.
Grandes discussões existem sobre a vida e pensamento de Rimbaud e principalmente o motivo que teria o levado a peregrinar pela Europa. Mas, umas das várias lições que esse gênio precoce nos deixou, é que o desconhecido está ai para ser explorado. E que a poesia não deve temer, jamais, ser causa e alvo do desconcerto.
Conheça a obra de Rimbaud:
http://br.geocities.com/edterranova/rimbaudpoe.htm
Crédito da foto:
http://www.skidmore.edu/academics/fll/janzalon/symbolism/rimbaud2.jpg
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Loucura, loucura, loucura!
"...se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas." (Lygia Fagundes Telles)Loucura é doença. Alienação mental, estado anormal de consciência, insanidade. Galileu era louco. Louco por ter a audácia de enfrentar as idéias vigentes da época em nome da ciência, propondo o sistema Heliocêntrico. Morreu condenado pela igreja, e desmoralizado intelectualmente. Sim, o criador do compasso e da luneta hidrostática, o primeiro a dizer que as massas não influenciavam na velocidade de queda dos corpos, foi motivo de chacota. Só ele sabe quantos tomates devem tê-lo atingido em praça pública, pois, infelizmente, ninguém se recorda de anotar esses dados.
Enfim, curiosidades avulsas à parte, a questão é que tudo que é alheio aos costumes da sociedade, é visto com estranhamento. Crescemos ouvindo a mesma história que diz que isso, e não aquilo, é o correto. Que pessoas que se vestem de determinada maneira são esquisitonas, e portanto, só podem ter caraminholas na cabeça. Onde já se viu? A coloquialidade do jovem e as várias revoluções vividas pelas gerações passadas permitiram que cada pessoa acreditasse no que achasse melhor e pintasse o cabelo da cor que bem entendesse. Sabemos, portanto, que a realidade é outra. Um cara de dreadlock é maconheiro. A garota de saia-curta, é piriguete. E por ai vai. Nossa sociedade é formada, acima de tudo, por estereótipos. Mas o que isso tem a ver com a inspiração e o processo criativo? Tudo! A resistência contra as novas idéias persiste! Porém, se a pessoa que as têm não é mais atacada no meio da rua, os sorrisinhos discretos e sarcásticos de crítica a perseguem onde quer que ela vá. Viva as pessoas ousadas, dispostas a romperem com o “lirismo que não é libertação”, como diria Bandeira.
A criatividade é, e talvez sempre será, vista como atividade de loucos. E o ser que aspira à verdadeira inspiração, deve estar disposto a dispojar-se da própria imagem certinha que faz de si próprio, ou que vende para os outros por medo de reprovação. Não entendam por isso que o pensante deve pular de para-quedas sem aparelhos de proteção, porém. Nesse caso, a liberdade pode até ser latente, mas o vento não vai vento cantar-lhe aos ouvidos as mais belas sinfonias. Esse tipo de inspiração não existe. Ao menos não de graça e sem esforço. A questão é estar disposto a ser circense. E palhaço de verdade, já chega ensaiado, e muito ensaiado. Muitas vezes causa medo em vez de sorrisos, mas a questão é que comove. E é ai que consiste seu mérito.
Muito silêncio já se fez com medo de dizer alguma bobagem. Que bobagem. Acreditar nas próprias idéias é essencial para que algum dia se possa chegar a dar, de fato, valor que elas merecem. E quem tenta ver uma situação sobre os ângulos aparentemente mais absurdos, tem uma maior probabilidade de vê-la de forma mais completa. Além do mais, quem disse que tolice não tem seu valor? Aventurar-se nela pode ser a semente que permitirá o nascimento de belos frutos.
“Não se reprima!” diziam os menudos, e essa frase é citada sempre que alguém resolve revelar algo inusitado sobre si mesmo, principalmente quando se trata de assuntos sexuais. Ela é, e poucos o percebem, quase uma receita de sucesso para a mente que deseja inovar. Todo mundo sonha com a manufatura de terno e gravata, a produção comedida de quem escreve e vive feijão com arroz todos os dias, a invenção da roda em panela de barro. Poucos percebem, que mudar, criar, produzir em vez de reproduzir, quase sempre, exige que se saia de casa com terninho rosa e plataforma extravagante, num veículo que não rode, mas deslize sobre um polígono de três, ou mais lados. A criatividade pede a cabeça da sanidade, mas ela quase sempre, insiste em ficar. E cabe ao pavilhão das idéias, à pessoa que deseja crescer, dar uma de “homem da machadinha.”.
A dica de hoje é, portanto: pulem, dancem e se arrebentem também, porque não? É dos tombos que costumam sair as melhores histórias, as cenas mais engraçadas, e principalmente, os maiores aprendizados.
Créditos da foto:
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Drogas e o processo criativo
O acabamento esmerado desse cristal,/Polido a esmeril e repolido a lima,/Prefigura o clima onde ele faz viver/E o cartesiano de tudo nesse clima. (João Cabral de Melo Neto, Num monumento à aspirina)João Cabral de Melo Neto, vencedor do prêmio Camões, a mais importante premiação da literatura em língua portuguesa, tomava cerca de três a dez pílulas de aspirina por dia desde a juventude. Segundo ele, o remédio, ao qual chamava de “Sol”, era sua grande pilastra poética, recanto onde encontrava lucidez para escrever e enxergava sua capacidade de estilo aumentar.
As drogas sempre estiveram presentes no processo criativo dos seres humanos. A arte rupestre nos remete ao fato de que o homem pré-histórico provavelmente conhecia algumas substâncias alucinógenas, representadas nas paredes das cavernas. Além disso, em 1948 foi utilizado pela primeira vez o termo “beat”, que se refere às pessoas que usavam drogas e escreviam sobre elas, época quando o assunto ainda era tabu.
Os maiores álbuns da história do Rock, como “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles (1967) e “Let It Bleed”, dos Rolling Stones (1969) foram criados sobre forte influência de maconha, heroína e LSD. Dizem por ai que Keith Richards, guitarrista da última, chegou a filtrar o próprio sangue em uma máquina que elimina as substâncias tóxicas. Verdadeira ou não, essa não é a primeira e nem será a última história que nos remeterá ao backstage químico do mundo musical. Nomes como Jimmy Hendrix e Janis Joplin foram além do limite e morreram de overdose.
Inúmeros são os instrumentos para estimular o processo criativo e a habilidade de gerar idéias, porque então, as drogas são tão usadas pelas artistas? O Ecstasy, por exemplo, age no cérebro aumentando a concentração de duas substâncias: a dopamina e a serotonina, que alivia a dor, e causa sensações amorosas, respectivamente, além de tornar a pessoa mais comunicativa e sociável. As drogas e geral, aguçam a sensibilidade e poder de concentração ou confiança. Jean Paul-Sartre, filósofo francês, fez uso intenso das anfetaminas, ingerindo-as como se fossem pastilhas de menta, por quase três décadas. Fazia isso sempre, com o argumento de que elas o faziam sentir-se mais alerta. “Mais vale escrever a Crítica – eu o digo sem orgulho -, mais vale escrever uma coisa que é longa, densa e importante do que estar bem fisicamente”, ele dizia.
Mas se as drogas auxiliam o artista a encontrar o foco preciso e turbinam o lado esquerdo do cérebro, responsável pela arte e sensibilidade, elas também interferem na capacidade de discernimento, além de causarem dependência física e perda de responsabilidade. Ringo Star dizia que sempre que os Beatles abusavam, a “música que faziam era uma bosta total.” O que derruba a idéia destorcida que diz que o uso de alucinógenos, impreterivelmente, age como elemento de inspiração. Aldous Huxley, autor do clássico moderno “Admirável mundo novo” dizia que "...não acredito que alguém possa se sentar e dizer 'Eu quero escrever um poema brilhante e por isso vou tomar ácido lisérgico'. Não acho, de maneira alguma, que você vai atingir o resultado esperado." E não poderia estar mais correto. Sem o espírito criador, não há frutos. Portanto, quem quiser produzir algo respeitável e manter o controle sobre si mesmo, não deve seguir por esse caminho.
Evitar “bad trips”. Está ai uma boa dica para a mente que deseja criar (e viver para contar a história.)
Crédito da foto:
http://www.flickr.com/photos/n-p-r/236174669/
domingo, 2 de setembro de 2007
Do que se trata?
Inspiração se trata do ato de lançar oxigênio para dentro dos pulmões. Sim, ótimo. Se isso se tratasse de um estudo sobre fisiologia, tal definição estaria mais que correta. Mas, para muitas pessoas, a inspiração diária que envolve os processos criativos trata-se de algo que vem com a insuflação nasal, ou é jogado lá do céu direto para a cabeça das pessoas. Infelizmente, não é assim. Thomas Edison dizia que "O gênio é 1% de inspiração e 99% de suor", e estava mais que correto. Mas a linha da história nos mostra que nem sempre se acreditou nessa teoria do esforço e trabalho.Segundo Platão, Deus arrebatava nos poetas “palavras de valor” e que no instante que esses se expressavam senão pela voz do Divino. Ele também enxergava pouca diferença, nessa mesma visitação, e a loucura. Jacques Maritain, filósofo francês de orientação católica, compartilhava dessa concepção, e escreveu que “o poder criativo depende do reconhecimento da existência de um inconsciente, ou melhor, pré-consciente espiritual.” A inspiração de grandes artistas, como Da Vinci e Michelângelo, constantemente é vista como resultado da genialidade e como produto de uma intuição altamente desenvolvida. Darwin discordava dessa visão extraordinária e descrevia a criatividade de uma pessoa como algo natural, e inerente ao ser humano.
Fatores como a educação recebida na infância e o incentivo dos talentos natos, são primordiais na criação, afinal de contas, não há fórmulas e receitas de bolo para o surgimento de uma idéia. Mesmo alguém que entenda tudo sobre técnicas mentais, não se saíra bem no processo criativo se não estiver de bem com a organização das próprias idéias e não tiver atitudes mentais corretas. Cada pessoa possuí seu método para obter a tão necessária inspiração, mas podemos perceber características bastante peculiares às mais criativas: além de dotadas de bastante curiosidade, estão sempre envolvidos na atividade que estão realizando. A questão da ausência de preconceitos também é fundamental, e elas estão sempre abertas às mais variadas formas de experiências, e principalmente a respostas diversas diante de um mesmo problema. Mas são três fatores que os concedem o direito de serem chamados de criativos: a persistência, o otimismo e a determinação; saber que as frustrações existem, mas estar disposto a supera-las.
Portanto, se você não for Ludwig van Beethoven e não compôs as maiorias sinfonias clássicas ainda no período da juventude, fique tranqüilo. Ou melhor, não tão tranqüilo. Sempre há tempo para criar e mudar o mundo em que vivemos, e isso é uma ótima notícia! Porém, quem está disposto a inovar deve estar ciente de que o caminho é ler cada vez mais, confrontar desafios, ser bastante flexível e estar disposto a aprender, sempre. A arte de criar é tão interessante, que devemos sempre reciclar nosso conceito sobre produção e desenvolver novos métodos para frutos diferentes. Mas as pessoas se saem melhor quando se baseiam no próprio universo cognitivo, lembranças e conhecimentos... e a única forma de desenvolver esse lado é vivendo bem. E fazendo de si mesmo, artista do dia a dia.
Crédito da foto:
http://www.flickr.com/photos/shavar/31751979/]
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Para quem? Para você!
Não, não vire o pescoço procurando alguém às suas costas. Nem finja que não está lendo isso, como quem inventa um novo alvo para essas palavras. É com você mesmo. Esse blog parte do pressuposto de se trata de alguém preocupado com as coisas que lança em direção ao mundo, portanto, adiantou-se para tomá-lo como leitor. E já ciente da sua situação, adianta-se em revelar: você não está sozinho.
E logo descobrirá por que. É possível até que se identifique com algumas situações, e se beneficie de alguma delas, mas não se engane. Isso aqui não é divã de terapeuta e não oferece a cura da solidão. Ele limita-se apenas a explicar, contextualizar e informar sobre um tema que assola dois em cada dois indivíduos em algum momento da vida.
Está curioso? Vamos lá. Trata-se do elo que une a raça humana. Quem precisa utilizar-se da racionalidade, sabe que se não produzir será engolido pela sociedade. Inércia não favorece ninguém e não há (bons) resultados, sem atividade cerebral. As sinapses permitem que os pensamentos se fomentem e a partir daí, tudo é possível. A capacidade do homem é infinita, capaz e absoluta: assemelha-se a imagem de um rapaz esforçado, sempre disposto ajudar. Certo?
Errado. Há grandes probabilidades de o seu cérebro deixa-lo na mão exatamente quando você precisar dele. Ou melhor, a incidência da clareza cognitiva é inversamente proporcional à necessidade que se tem dela. Entendeu agora, porque você não está sozinho? Inspiração não é problema de escritor, e sim, de qualquer pessoa. Há quem diga que sem ela, não dá para comer, trabalhar e até mesmo se relacionar com outras pessoas, pois fugir disso é cair no marasmo. E as mudanças têm papel importantíssimo na vida social. Que seria do mundo se as pessoas em vez de gastarem tempo pensando em assuntos inexplorados, desistissem diante do primeiro bloqueio de raciocínio? Nada.
Portanto, se você, alguma vez, já usou a expressão “deu branco”, deixou de sair porque o dia não estava bonito, ou até mesmo adiou a realização de um trabalho, seja bem vindo. Aqui a inspiração (ou a falta dela) tem seu lugar. E quem não tem outra escolha senão produzir vai perceber que a indisposição a fazê-lo, mesmo quando tudo parece favorável, é muito comum.
Crédito da foto:
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